Celebrações, Curiosidades

Entre castanhas e milho: a memória de Pessach em tempos de clandestinidade

Quando pensamos em Pessach, pensamos imediatamente em matzá, na pressa da saída do Egito e na memória viva da liberdade. Mas, ao longo da história, nem todos os judeus puderam celebrar esta festa em segurança, nem com os ingredientes ideais. Para muitos cristãos-novos e criptojudeus, observar Pessach significava adaptar, improvisar e preservar o essencial em silêncio.

É nesse contexto que surgem referências fascinantes ao uso de castanhas em Portugal e de tortilhas de milho no México colonial como formas de manter, ainda que de modo adaptado, a memória do pão ázimo. A ideia é historicamente consistente e aparece em estudos sobre alimentação sefardita e criptojudaísmo: quando a matzá tradicional não estava disponível, alguns grupos recorriam aos alimentos mais acessíveis do seu território, tentando conservar o sentido ritual da festividade.

Em Portugal, a ligação à castanha não surpreende. Durante séculos, especialmente em várias regiões do interior, a castanha teve um papel central na alimentação quotidiana, chegando a funcionar quase como substituto do pão em certos contextos. Nesse quadro, faz sentido que a historiografia associe a castanha a práticas alimentares ligadas a Pessach entre cristãos-novos. O mais prudente, porém, é não apresentar essa relação de forma excessivamente absoluta: mais do que afirmar sem reservas que existia uma “matzá de castanha” no sentido ritual estrito, é historicamente mais seguro falar de substituições alimentares e gestos de evocação da matzá em contexto de clandestinidade.

No México da Nova Espanha, o cenário torna-se ainda mais eloquente. A tortilha de milho, base alimentar do quotidiano local, oferecia uma alternativa natural para quem queria evitar pão fermentado durante Pessach. A literatura histórica sobre os criptojudeus mexicanos refere o caso de Luís de Carvajal, o Moço, associado ao uso de tortilhas de milho como resposta à ausência de pão ázimo. Outros estudos mencionam também práticas semelhantes entre famílias judaizantes perseguidas pela Inquisição, reforçando a ideia de que a adaptação dos alimentos era uma forma de preservar a memória religiosa quando a observância plena se tornava impossível.

Ao mesmo tempo, é importante distinguir entre valor histórico e validade ritual. Do ponto de vista haláchico, a matzá não é simplesmente qualquer alimento sem fermento. A matzá ritual deve ser preparada a partir de um dos cinco grãos tradicionais, incluindo o trigo, e sob condições rigorosas que impeçam a fermentação. Isso significa que castanhas ou milho podem ter tido um papel real e comovente na vivência criptojudaica de Pessach, mas não correspondem necessariamente à matzá normativa segundo a tradição judaica clássica.

E é precisamente aí que este tema ganha profundidade. Estas práticas não devem ser vistas como curiosidades folclóricas, mas como sinais de resistência cultural e espiritual. Quando faltavam liberdade, comunidade, livros ou meios para cumprir a tradição de forma aberta, restava muitas vezes a cozinha como último refúgio da memória. Um alimento local podia tornar-se mais do que sustento: podia tornar-se símbolo, herança e fidelidade.

No fundo, castanhas em Portugal e tortilhas de milho no México contam a mesma história. Não a de uma observância perfeita, mas a de uma continuidade possível. Mostram-nos que Pessach também sobreviveu fora das grandes mesas e fora das condições ideais – em casas discretas, em práticas fragmentadas e em escolhas moldadas pela necessidade. E lembram-nos que, por vezes, a tradição não se conserva apenas na forma exata com que foi recebida, mas na determinação de não a deixar desaparecer.